Religião

Jardim das Oliveiras

O ápice dramático e doloroso da morte de Jesus, no alto da cruz, inicia-se no jardim do
Monte das Oliveiras, com lições singulares para compreender e encharcar-se da verdade
redentora que vem da oferta obediente e amorosa do Filho de Deus-Pai. Todos que se
colocam diante de Jesus, de seu seguimento, são tocados por seus raios de luz que
dissipam as trevas sobre a condição humana. Assumir o discipulado de Jesus é um
grande desafio existencial. Inclui uma adequada compreensão sobre aquilo que o Mestre
viveu no Jardim das Oliveiras. Esse entendimento exige contemplação silenciosa para
alcançar um sentido que está além da razão, que tem a sua importante luz, mas
insuficiente para enxergar a verdade chamada amor. Configura, assim, a disposição para
uma obediência que gere a oferta corajosa, efetiva, da própria vida. Essa disposição não
pode ser confundida com a defesa de bandeiras, a partir de discursos inflamados. Trata-
se de oferta que, efetivamente, muda cursos de rios. Aliás, os discursos inflamados, os
alardes, muitas vezes confundidos com profecias transformadoras, estão bem distantes
da experiência de contemplação, essencial para construir consistência interior, alicerce
que pode sustentar amplamente, sem preconceitos e discriminações odiosas, a
oportunidade de ser o discípulo espelho testemunhal do Mestre Jesus.
O Mestre é o Filho de Deus, acompanhado pelos discípulos, inebriados pela experiência
da última Ceia, concluída com o canto de salmos, efetivando os temperos da oração, da
gratidão e do louvor como ingredientes indispensáveis para se viver na coragem
amorosa de Jesus. A coragem do Mestre é expressa pela oferta que Ele faz de si, lição e
caminho para todo discípulo na sua fraqueza humana e nos limites da sua capacidade de
amar. Jesus sai com aqueles que o seguem em plena noite com a disposição de assumir
sobre si, amorosamente, obedientemente, a condição de cordeiro imolado para operar a
verdadeira, única e completa redenção da humanidade, povo de Deus. O que Cristo
expressou com seus discípulos era agradecimento e reconhecimento pela libertação do
povo alcançada por Deus, Seu Pai. No Jardim das Oliveiras, a oferta de Jesus é
inaugurada sem gritos de ódio, sem mágoas de ninguém. O Mestre não se restringe a ser
apenas porta-voz de revoltas, encurralado pelas estreitezas emocionais comuns aos seres
humanos. Não há espaço para manifestações odiosas ou rancorosas, sem gratidão, sem
considerar o semelhante, particularmente aqueles que experimentam a exclusão.
Envolvido pela agonia, Jesus responde às ameaças e tribulações com obediência
amorosa ao seu Pai, permitindo uma reviravolta na compreensão da vida e do seu
tratamento pela realidade da cruz. A oferta de Cristo tem força para gerar a verdadeira
libertação, permitindo à humanidade conquistar uma sabedoria que reorienta a vida com
o vigor de autêntica profecia. A escuridão da noite de agonia no Cedron se ilumina pelo
sentido inesgotável do amor perene revelado na oferta da cruz. Com o gesto extremo de
Jesus alcança-se a linguagem do verdadeiro amor, por sua singularidade desafiadora:
ganha quem perde e perde quem ganha, lógica explicitada fartamente nas páginas do
Evangelho. Os discípulos são desafiados a aprender, fielmente, essa lição que é plena de
novidade e se contrapõe à mesquinhez humana. Jesus é fidelidade e novidade o tempo
todo. Essa novidade e fidelidade são magistralmente expressas naquele lugar, o jardim
da torrente do Cedron.
Iluminada é a profecia que vem da cena em que Jesus repreende Pedro, na ceia
derradeira quando o discípulo, enquadrado em lógicas humanas de poder, não aceitou
que o Mestre lavasse os seus pés. Ali, a partir da discriminação alimentada pelo

raciocínio humano, Pedro não conseguiu compreender que todos são, igualmente,
merecedores da fraternidade solidária, sem preconceitos e qualquer discriminação. Jesus
convence que o verdadeiro sucesso se conquista com a cruz. Ilustrativa portanto é a
oração de Jesus no Jardim das Oliveiras. O Mestre compartilha com os discípulos a sua
grande tristeza, especialmente com Pedro, Tiago e João. E chama à vigilância. No
entanto, sobressai a sonolência dos discípulos, configurando ocasião favorável ao poder
do mal. O poder do mal que domina, enche os olhos daqueles que denunciam a partir de
incoerências. Gente que, inclusive, pode estar com vestes sacras, mas seduzida pela
astúcia de Judas, que se aproxima e entrega Jesus à morte com um beijo, gesto de
afeição transformado em instrumento de traição.
A alma entorpecida pelo sono significa a incapacidade para alarmar-se com o poder do
mal no mundo. Essa incapacidade torna o ser humano conivente com as injustiças,
contentando-se com discursos que apenas formulam pensamentos nos quadros da
hipocrisia de Judas, o traidor, quando, por exemplo, critica a mulher por usar perfume
caro na unção dos pés de Jesus, mas, ao mesmo tempo, revela desconsideração em
relação aos pobres quando roubava o dinheiro da bolsa comum do grupo de discípulos.
Jesus afasta-se para orar, prostrando-se para acolher e obedecer a vontade do Pai,
suando sangue. Na cruz, derramando o sangue todo para operar a obra da Salvação. A
agonia intensa pode gerar medo diante do poder da morte. Como Filho de Deus, o
Mestre vê com clareza a força da morte a ser vencida com a sua oferta de amor na cruz,
obedientemente ao Pai. Angustiado, mesmo com a consciência clara de sua força
redentora, pede ao Pai que “afaste o cálice”. Supera a dor e não dá lugar à covardia,
testemunhando sua confiança amorosa no amor de Deus.
Seja feita a vontade do Pai! Jesus assim faz a sua oferta traçando o único caminho com
força de superar o lamaçal do mal que respinga em toda pessoa. O itinerário delineado
pelo Mestre é o único capaz de dissipar e vencer a soberba, o orgulho e derrubar
máscaras, fazendo com que o amor vença o horror da astúcia e da atrocidade do mal.
Beba do cálice da agonia, sem medo, para vencer as sonolências da condição de
discípulo e permanecer de pé, junto à cruz, participando da hora maior, quando Jesus
morre e abre a página nova, definitiva, da história da salvação humana. Graças a ela, o
mundo foi remido: seja adorada e bendita a cruz de Cristo!

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte