Religião

Conformar-se a Cristo

Por Dom Walmor

A Quaresma, celebrada pelos cristãos em preparação para a Páscoa, é caminho com
muitos itinerários que ganham sentido a partir de um horizonte: o desafio espiritual de
qualificar o ser humano, chamado a conformar-se a Cristo. Isto é, conquistar as mesmas
feições e atitudes do Redentor da humanidade. O ser humano precisa interessar-se por
esse desafio que é capaz de dar alento e sabedoria ao coração, permitindo-o alcançar
respostas capazes de dar rumo novo à vida. A busca por conformar-se a Cristo não
pode se restringir às experiências vividas no seguimento de influencers, no cultivo de
ídolos das artes ou dos esportes. Conformar-se a Cristo é a oportunidade de prover-se de
uma fonte inesgotável de sentido para viver, de coragem para lutar por um mundo
melhor e, assim, qualificar-se pela conquista de um tecido humano e espiritual da mais
alta qualidade. Os caminhos para conformar-se a Cristo são muitos, de vários tons. O
próprio sofrimento pode ser um ponto de partida.
Todo ser humano é visitado por situações de sofrimento, mas a dor, em si, não é capaz
de fazer com que uma pessoa se torne boa. Já a experiência do sofrimento iluminada
pelo sofrimento de Cristo, na sua paixão e morte, oferta de si na cruz, torna o ser
humano melhor, possibilitando-o a compreender melhor a própria dor. À luz da oferta
de Cristo na Cruz, o ser humano deve ofertar a si mesmo, para alcançar a redenção que
todos precisam. E um ser humano comprovadamente qualificado, conformado à Cristo,
tem a competência de não perseguir, mesmo se sofrer com perseguições, não ultrajar,
mesmo se ultrajado, não caluniar, ainda que for vítima de calúnias. Um ser humano que
se faz amigo de todos, movido sempre por misericórdia. Aqueles que vivem a própria
dor à luz da oferta de Cristo aprendem a esperar sempre em Deus, particularmente nas
circunstâncias difíceis.
Ensina o beato Columba Marmion que, esperar em Deus, repousar no seu seio, quando
tudo corre bem, não é de grande virtude: o ser humano, apesar das dificuldades vividas,
deve estar sempre convencido de que Deus jamais o abandonará, auxiliando-o a
encontrar saídas, com sua sabedoria, seu poder e seu amor. Vale lembrar também o
Papa Francisco quando apontava a vivência da Quaresma como anseio pelo sopro de
vida que o Pai de Jesus e de todos não cessa de oferecer à humanidade. Conformar-se
com Cristo é aprender e admitir que Jesus se fez fraco e cansado pelo caminho, fazendo-
se homem, sendo Deus, por causa de cada ser humano. Provoca Santo Agostinho com
fortes interrogações: de fato, que caminho pode percorrer quem está em toda parte e
nunca ausente de lugar nenhum? Tenha-se muito presente, impactando-se, que Cristo se
dignou a vir, não somente assumindo a carne, mas também a condição de escravo.
Assumir a carne é o caminho percorrido por Ele.
Santo Agostino lembra que Deus é o médico das almas, instituiu o tempo favorável,
referindo-se à Quaresma. Um tempo suficiente aos justos para orar, e aos pecadores
para suplicar; os primeiros pedem o repouso, os segundos pedem o perdão. A Quaresma
é santa e salutar para conduzir o juiz à misericórdia, o pecador à penitência, o justo ao
repouso. Portanto, um tempo para conformar-se a Cristo, despertando para o seu
seguimento que inclui a prática da humildade para se chegar aonde ele chegou. Ele,
Cristo, facilita a todos os seres humanos o percurso rumo à salvação.
Cristo é o caminho. Um caminho que deve ser trilhado com dois pés: a humildade e a
caridade, conforme ensinam os santos. Para estes, a caridade atrai todos, mas a
humildade é o primeiro degrau. Há de se começar sempre pela humildade. O conformar-

se a Cristo faz de todo ser humano um viajante. Um viajante peregrino que deve ter na
Palavra de Deus seu alimento diário, alimento da alma. Um pão que não deixa ressecar
o coração, mas fortalece-o com sua substância rica e fecunda. O coração fica banhado
da prece de um presbítero chamado Pedro Blois, que vale a pena recitar sempre e de
coração: “Senhor, espero em ti! A tua sabedoria é infalível, teu poder invencível, tua
bondade infatigável, teu amor sem fim. Ainda que me veja flagelado ou em chamas,
espancado ou morto, hei de esperar em ti, Senhor: contando que ajudes e me ensines a
fazer a tua vontade; concede-me um sinal que me prove a verdade do teu amor para que
te procure e em ti espere. És bom para quem confia em ti, para a alma que te procura.
Tenho certeza que aqueles que te servem não são oprimidos, mas honrados, porque
muito honrados são os teus amigos, ó Deus. (Sl 138,17). Vale a pena, é uma aposta
exitosa e de ganhos perenes, esforçar-se, por algum caminho ou itinerário, para
conformar-se a Cristo.
Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

Fonte : SECOM Arquidiocese de Belo Horizonte