Do laboratório à fama: Tatiana Sampaio, a cientista brasileira que pode mudar rumos da medicina, é o assunto do momento
Pesquisadora da UFRJ estuda há três décadas a polilaminina, molécula capaz de devolver movimentos humanos; Anvisa já autorizou a realização de testes clínicos
Bióloga da UFRJ Tatiana Sampaio (reprodução / Instagram)
Mesmo diante da enxurrada de publicações sobre o carnaval nas redes sociais, uma cientista brasileira passou a figurar com frequência em posts mundo afora por uma razão que extrapola a exaltação da cultura nacional: a cientista Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tem sido amplamente celebrada por descobrir uma possível saída a pacientes com lesões na medula óssea.
A descoberta da bióloga é o resultado de 30 anos de pesquisa sobre a polilaminina, versão recriada em laboratório da laminina, proteína produzida naturalmente pelo corpo e que ajuda os neurônios a se conectarem. Em suma, trata-se da maior esperança já alcançada pela ciência com o objetivo de devolver os movimentos humanos a tetraplégicos.
O feito de Tatiana imediatamente repercutiu dentro do governo federal, com direito a um encontro com o presidente Lula ocorrido nos últimos dias. Na ocasião, a bióloga aproveitou para pedir agilidade no processo de aprovação do medicamento pela Anvisa. “Estamos respondendo todas as questões feitas pela Anvisa,mas precisamos avançar”, disse ela.
A expectativa em torno do medicamento preenche uma lacuna presente há décadas na medicina. Lesões na medula podem ter consequências bem graves e levar à paraplegia (paralisia dos membros inferiores) ou tetraplegia (paralisia de braços e pernas).Nos casos mais sérios, quando acontece a lesão completa da medula, ainda não existe nenhum tratamento disponível para recuperar plenamente os movimentos.É aí que entra a polilaminina. No ano passado, a equipe de Sampaio divulgou os resultados de um estudo preliminar — que não teve revisão por pares, ou especialistas independentes — com oito pacientes.
Resposta da Saúde
No final de janeiro, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, já havia se pronunciado a respeito do revolucionário estudo de Sampaio. O titular na pasta anunciou o início do estudo clínico de fase 1 para avaliar a segurança do uso da polilaminina no tratamento do Trauma Raquimedular Agudo (TRM). A ação representa um marco histórico no avanço regulatório e científico do país, ao possibilitar o desenvolvimento inédito de uma terapia para o tratamento de pacientes com lesões na medula espinhal, com o objetivo de ampliar o acesso, a assistência e a integração da pesquisa clínica ao Sistema Único de Saúde (SUS).
“É um marco importante para a saúde, especialmente para pessoas com lesão medular aguda e crônica. Cada avanço científico e tecnológico renova a esperança e reforça o compromisso do Ministério da Saúde com o fortalecimento da pesquisa clínica. A aprovação, pela Anvisa, de um estudo desenvolvido em uma universidade pública tem potencial para revolucionar o tratamento no SUS e no país. O Brasil demonstra, assim, sua capacidade inovadora e oferece esperança a milhares de pessoas”, afirmou Padilha.
Com a autorização concedida pela Anvisa, o estudo clínico da polilaminina será realizado em cinco pacientes voluntários, com idades entre 18 e 72 anos, portadores de lesões agudas completas da medula espinhal torácica entre as vértebras T2 e T10, com indicação cirúrgica ocorrida há menos de 72 horas da lesão. Os locais de realização ainda serão definidos pela empresa responsável.
O estudo pelo qual a polilaminina passará é a primeira parada de ao menos três etapas até chegar à aprovação da Anvisa. Primeiro, o medicamento será avaliado em cinco pacientes para identificar sua segurança: ou seja, se seu uso não traz risco à saúde de quem recebe.
Mais adiante serão avaliadas sua eficiência em grupos menores e maiores, tudo sob acompanhamento constante de pesquisadores e com aval de comitês de ética e sanitário. A ideia é medir o avanço dos pacientes aos seis meses de uso e, depois, um ano.
O que é a polilaminina
A polilaminina é derivada da laminina, um componente natural da matriz extracelular — o suporte físico e bioquímico que envolve as células nos tecidos. No organismo, a laminina atua como um “andaime biológico” que ajuda a organizar as células, promover a adesão celular e orientar o crescimento de neurônios, especialmente durante o desenvolvimento embrionário e na reparação tecidual.
Quando essa proteína é transformada em sua forma polimerizada em laboratório, ela forma malhas tridimensionais capazes de criar um ambiente estruturalmente mais favorável à regeneração neural. Em experimentos pré-clínicos com animais, essa forma polimerizada, ou polilaminina, mostrou potencial para estimular o crescimento de axônios — prolongamentos dos neurônios responsáveis por conduzir sinais elétricos.
Estudos em modelos de lesão e em cultura celular indicam que a polilaminina não apenas melhora a capacidade dos neurônios de estender seus prolongamentos em direção a regiões danificadas, mas também pode influenciar a proliferação e a organização celular em torno do tecido lesionado. Esses efeitos são essenciais para ultrapassar barreiras que normalmente inibem a regeneração no sistema nervoso central.
É importante contextualizar que, embora relatos jornalísticos e alguns relatos iniciais de pacientes tratem de recuperações motoras impressionantes, os resultados clínicos ainda estão em fase inicial de avaliação e não constituem prova definitiva de eficácia. A polilaminina não é apresentada pelos pesquisadores como uma “cura isolada”, mas como um agente que, integrado a outras abordagens terapêuticas e reabilitação, pode potencialmente restaurar conexões nervosas e funções motoras em indivíduos com lesões graves na medula espinhal.
A comunidade científica acompanha os próximos passos dos ensaios clínicos para confirmar segurança, mecanismos de ação e benefício clínico amplo.
Casos isolados
Paralelo às notícias sobre o feito científico brasileiro, tem circulado nas redes sociais casos de pacientes humanos que já fazem uso do medicamento. A informação, no entanto, deve ser analisada com cautela.
Apesar de ainda estar longe de ter uma autorização para ser comercializada e usada em tratamentos, pessoas com diferentes tipos de lesão na medula têm obtido acesso ao tratamento por meio de liminares expedidas pela Justiça e têm relatado bons resultados.
Um caso recente foi o da nutricionista Flávia Bueno, de 35 anos, que ficou tetraplégica após sofrer um acidente ao mergulhar no mar nos primeiros dias do ano. Após a aplicação da proteína, em 23 de janeiro, no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, onde ela está internada, a nutricionista voltou a mexer o braço direito, segundo a família.
A notícia foi amplamente compartilhada nas redes sociais, embora a própria bióloga reitere que os testes em humanos ainda não começaram oficialmente.De acordo com o laboratório Crisália, parceiro da UFRJ no estudo da molécula, ao menos 14 pedidos do tipo foram protocolados, com nove aplicações já feitas no total. Em todos os casos, a farmacêutica teve de entregar as doses para o paciente sem cobrar o custo de produção.
“Essas aplicações, é importante dizer, não estão no âmbito do estudo aprovado pela Anvisa e são acompanhadas apenas à distância pelos desenvolvedores do fármaco, que não têm conexão com os pacientes. Ou seja, relatos de efeitos adversos relacionados ao uso ou a evolução desses pacientes não são acompanhados por pesquisadores e, portanto, não são considerados como parte do estudo do fármaco, que ainda precisa passar por fases que demonstram o quanto ele é tolerável e eficiente”, informou a empresa em seu site oficial.
Fonte: Focus Brasil / Foto: Reprodução / Instagram)
